Vicente

13 nov

No dia que você nasceu, uma sexta-feira, fazia bastante sol. Pela hora em que eu falei com o teu pai, eu provavelmente caminhava com o Grandão no momento exato em que tu oficialmente virou um habitante desse mundo estranho.

O Grandão, cê ainda vai descobrir, é aquele cachorro gigantesco que vai adorar te lamber toda vez que tu for lá em casa. Aliás, momentos antes de eu falar com o teu pai, o Grandão fez a guia dele em dois pedaços correndo enlouquecidamente atrás de um cavalo que ele viu passar. Acho que tu vai gostar dele.

Não muito depois, teu pai ligou. “Nasceu. É um alemãozinho.”

Ouvir “alemãozinho” me fez viajar anos no passado, pra época em que eu conheci o teu pai, quando ele ainda achava que comer feijão ia deixar o cabelo dele preto.

Naquele tempo, a gente tinha 5, quase 6 anos. Foi no dia que eu me mudei pra minha primeira casa de verdade em Chapecó que o tal alemãozinho passou na frente de lá com duas caminhonetezinhas, uma vermelha e uma azul. Ele ia pra casa, mas parou e, lá, na garagem daquela primeira casa, quase na frente de onde a tua vó ainda mora, começou algo que, no momento em que tu chegou, já duravam 20 anos.

Nessas duas décadas, eu ensinei pro teu pai o que é verbo e ele me ensinou o que é cerveja. Eu enchi o saco dele porque ele bebia demais, porque ele fumava demais e porque ele era cabeça-dura demais. E ele sempre continuou o mesmo. (Há uma boa chance então de que, no momento em que tu tiver lendo isso, tu já seja um alemãozinho teimoso).

Esses 20 anos fizeram que eu e o teu pai não fossemos mais amigos. Viramos irmãos. E, no final das contas, eu me sinto mais que padrinho, mais que um tio, quase um segundo pai pra você. Porque é isso que o teu pai representa pra mim.
Um dia depois de você nascer, quase um dia inteiro de expectativa depois, eu finalmente pude te ver. Quando entrei no quarto, você deitava no colo da tua mãe. Usando uma roupinha verde, tava todo enrolado num cobertorzão muito maior que você. Eu te peguei no colo, te beijei e te olhei por um bom tempo. E até te embalei e te fiz parar de chorar por um momentinho, quando você tinha fome. (E, por algum motivo, deixei pra chorar só agora, em casa, enquanto transcrevo esses rascunhos pro computador).

Também tirei fotos tuas. E a primeira delas, contigo no colo da tua terceira vó, foi a primeira que o teu pai colocou no orkut, aquela que te mostrou pro resto do mundo. Eu me enchi de orgulho. Não pela foto, mas por estar lá, no começo de uma coisa sem tamanho da qual eu prazerosamente vou fazer parte, certamente com vários sorrisos bobos como aquele da primeira vez em que eu te segurei.

Enfim, sem mais delongas, conte comigo pros livros, pros filmes, pras músicas, pros gibis e pra tudo mais que tu não puder ou não quiser falar pro teu pai e pra tua mãe.


Bem-vindo, pequeno.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.